O Olhar



O curso Arte: História Critica e Curadoria, apresentou aos alunos, em pouquíssimo tempo, temas de grande importância. Citar todos os itens que nos chamaram a atenção seria impossível neste pequeno texto. Porém, um destes temas parece imprescindível destacar: Trata-se da questão do olhar sobre a obra de arte. Mais especificamente, da pintura.
Saber olhar, aprender a dirigir o olhar para uma obra, é de extrema significância, pois, não podemos esquecer o papel e a influência que uma obra de arte exerce sobre nós, seres humanos, uma vez que aperfeiçoa, aprimora e desenvolve a nossa sensibilidade para tudo aquilo que aparece diante de nossos olhos. A importância de desenvolver um olhar técnico em uma obra de arte é constatada, por exemplo, através do clássico modernista O Abaporu de 1928, pintado por Tarsila do Amaral.                                                                       
A princípio, vemos uma figura humana, um homem gigantesco, com deformação entre as partes do corpo. Ao seu lado, um cacto que nos revela algo irreal, porém mesmo tempo extremamente real.  Um céu bem azul, e um sol dentro de uma bola amarela.  A imagem solitária de um indivíduo triste, com cores que caracterizam o homem de nossa terra, nos faz refletir, o porquê e como houve este ato criativo, o que fez Tarsila do Amaral retratar em sua obra, inconscientemente ou conscientemente, um homem com essas formas tão desproporcionais e únicas? Não havia nas artes plásticas uma figura com características tão marcantes, uma ruptura, uma vontade de demonstrar. Somente com o passar dos anos Tarsila conseguiu descrever as pinturas desta fase “Só então compreendi que eu mesma havia realizado imagens subconscientes, sugeridas por estórias que ouvira em criança”.                                                                                                                                   
Até hoje ainda inspira muitas pessoas, que, ao olhar esta imagem, tão irreal, sentem uma certa identificação com este homem, o homem “Abaporu”, batizado em Tupi-guarani. “Aba” significa homem, e “poru” come, ou o “homem que come”.     Inspirou Oswald de Andrade a redigir o manifesto antropofágico, um retorno para a conscientização de nossos valores, de nossa história, um retorno ao homem brasileiro com seus costumes e crenças, uma identidade nacional, a que devora as influencias européias. 
Através desta imagem-símbolo, podemos pensar sobre a importância da imagem, que sempre esteve presente na história humana. Desde os primórdios, a imagem pode ser associada à magia e crença, como vemos nas pinturas rupestres que tinham um significado até mesmo ritualístico.
Uma imagem, quando ligada ao nosso intimo, reflete o nosso ser, pois através de uma obra de arte não nos limitamos, vamos além, imaginamos, sentimos. Além de ser uma forma de documentar a história do homem, ela nos ensina, com o tempo, a compreender e a observar a importância que o olhar tem em toda nossa vida, uma abertura para olharmos o nosso próprio mundo.
A contribuição de Tarsila do Amaral, e outros pintores de sua geração, para a história da arte brasileira, é positivamente incontestável, pois revelou, e ainda nos permite observar, através de seus belíssimos quadros, a beleza de um país tão diversificado como o Brasil e a autenticidade de elementos que sem as suas obras permaneceriam não revelados para todos nós.

Por Carolina Galvão Moreira de Araujo

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